quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Tempo de Travessia


“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre

À margem de nós mesmos”

Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Solteirice

Não estava nos meus planos me tornar uma solteira convicta. Mesmo porque nem há tanta convicção assim na minha solteirice. Estou solteira por uma questão circunstancial. Afinal, são as circunstâncias que não caminham a meu favor há algum tempo - e que tempo  - para eu encontrar um namorado legal, excepcional e cordial.

Houve uma época em que eu acreditava que a minha solteirice fosse resultado da minha falta de sorte, ou do meu dedo podre, ou ainda do meu excesso de romantismo, idealismo e feminismo.

Já culpei os astros pela minha solteirice e também a numerologia e a tarologia. Talvez a culpa seja das estrelas...

Às vezes acho que estou vivendo um resgate cármico, por ter sido um espírito pouco altruísta e muito egoísta, em outras vidas.

Também já atribui a minha solteirice a feitiçaria, mandinga e rituais de bruxaria (credo!!!!!). Mas vai saber se algum ex-namorado não ficou com raiva de mim e optou por uma atitude covarde assim???

Já condenei os homens pela minha solteirice, com todas as suas babaquices e idiotices. Já os incriminei por falta de comprometimento, respeito e envolvimento. Já os julguei superficiais e amorais. Já os subestimei e superestimei demais, muito além do merecimento de muitos deles.

Também já me crucifiquei pelas minhas escolhas erradas, mal elaboradas e insensatas. Já culpei a tudo e a todos. Mas que tem culpa da minha solteirice? Talvez eu tenha um pouco de culpa nessa história... Talvez a minha postura defensiva trouxe-me aqui, para esse lugar solitário, onde relacionamento sério se tornou algo raro.

Acho que eu preciso ir mais para a balada, tomar mais geladas e ficar menos “trancada” em casa. Talvez eu deva começar a apostar mais nos modelos sensuais e abandonar as roupas casuais. Pode ser, ainda, que esse corte de cabelo curto não me favoreça; preciso começar a deixar o cabelo crescer, o ombro aparecer e o joelho irromper.

Talvez seja a hora de virar a mesa. E entender um simples fato: que todo sapo é um pouco príncipe e que todo príncipe  é um pouco sapo.

Camila Santos


domingo, 21 de agosto de 2016

Olimpíadas


Vou sentir saudades da Olimpíada do Rio de Janeiro. Não apenas dos jogos em si, mas principalmente do clima de festa e alegria que tomou conta do nosso país.

Durante duas semanas nos tornamos um povo otimista, com alegria e fé renovadas. Foi um período mágico, no qual nossos problemas se tornaram pequenos, diante da grandiosidade dos nossos atletas. E os nossos atletas...ah o que falar dessas pessoas incríveis que se superaram a cada competição? Difícil pontuar a força e sede de vitória de cada um deles.

O fato é que vibramos com eles e por eles. Comemoramos o terceiro lugar, a medalha de ouro e acima de tudo a participação de cada um dos nossos esportistas; e sabe por quê? Porque eles estavam nos representando nas quadras, piscinas e tatames, de forma tão excepcional e patriótica, que foi difícil não torcer e se emocionar.


Hoje não temos mais olimpíadas. Acabaram as competições, as medalhas e vitórias. Nossos pés foram tirados do pódio e colocados no chão. Hoje é segunda-feira, dia de realidade. Momento de olhar para todos aqueles problemas que deixamos para resolver depois. 


E agora, o que faremos com o término dos Jogos Olímpicos? Muito se fala no legado dos jogos, ou seja, em toda a herança que o evento vai deixar no nosso país.  Torço para que o legado olímpico se torne realidade e para que o esporte seja mesmo, a partir de agora, visto como uma ferramenta de transformação social, porque do contrário continuaremos sendo apenas o país do futebol, dos políticos corruptos e do carnaval. 

Camila Santos

domingo, 5 de junho de 2016

Oitavo Andar

Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar
Onde a Dona Maria mora
Porque ela me adora e eu sempre posso entrar

Era bem o tempo de você chegar no T
Olhar no espelho seu cabelo, falar com o Seu Zé
E me ver caindo em cima de você
Como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer

E ai, só nós dois no chão frio
De conchinha bem no meio-fio
No asfalto riscados de giz
Imagina que cena feliz

Quando os paramédicos chegassem
E os bombeiros retirassem nossos corpos do Leblon
A gente ia para o necrotério
Ficar brincando de sério deitadinhos no bem-bom

Cada um feito um picolé
Com a mesma etiqueta no pé
Na autópsia daria pra ver
Como eu só morri por você

Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar
Em vez disso eu dei meia-volta
E comi uma torta inteira de amora no jantar


Clarice Falcão

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O valor do Não



Cresci ouvindo minha mãe dizendo sim para todos. Ela jamais negou um pedido ou favor a alguém. Minha mãe é daquelas pessoas extremamente prestativas. Ela está sempre pronta para colaborar e ajudar seja quem for. Ela pode até deixar de atender um desejo dela, nem que para isso ela negligencie as suas próprias necessidades. Mas sempre (sempre mesmo) ela se prontifica a realizar o desejo das outras pessoas.

Essa disponibilidade da minha mãe sempre me causou certa aversão. Não porque eu não gosto de ajudar as pessoas, muito pelo contrário! Mas porque acompanhei a frustração da minha mãe, por inúmeras vezes, ao constatar o seu apoio e ajuda sendo retribuídos com ingratidão e esquecimento.

Daí você me fala: quem ajuda deve fazê-lo de coração, sem esperar nada em troca. Daí eu te pergunto: você não espera retribuição ou pelo menos o mínimo de consideração daqueles que um dia você ajudou? Por mais desencanados e bons que sejamos sempre esperamos o reconhecimento daqueles que apoiamos. Um dia podemos até abandonar esse mau hábito do “uma mão lava a outra”, mas isso não ocorrerá amanhã, nem daqui um ano, nem daqui a séculos, porque somos humanos e faz parte da nossa natureza esperar pela gratidão daqueles que um dia ajudamos. Está aí a política que não nós deixa mentir: ela é feita de troca de favores, de acordos, enfim de apertos de mão, que quando não cumpridos geram esse constrangimento todo que está aí; Dilma x Michel Temer.

O fato é que por algum motivo que Freud explica percebo que ando repetindo o comportamento da minha mãe. Tenho falado muitos sins e dito poucos não. E o pior: tenho falado sim para situações e pessoas que há muito tempo estão merecendo um NÃO bem grande. Sinto que estou sendo colaborativa demais e tenho recebido retorno de menos.  E isso tem se espalhado para todos os setores da minha vida (um caos).

Tô parecendo um robozinho programado para dizer sim. Estou funcionando no automático, como se minhas idéias e anseios não tivessem importância alguma; e isso tem que mudar!