terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Ressignificar

Algumas pessoas acreditam que a vida fica séria quando atingimos a maioridade, entramos para o mercado de trabalho ou começamos a pagar os nossos próprios boletos. Eu não penso assim. Eu acredito que a vida fica séria quando pessoas queridas começam a partir e nos deparamos com a morte. A partir deste momento, a vida perde a leveza, um pouco da cor, um tanto da graça e torna-se austera, pesada e fragmentada. 

Ah, mas a morte não precisa ser encarada como algo triste, alguns vão dizer. Sim, eu concordo. A morte pode ser vista como um alívio para as dores, as doenças e os sofrimentos. Ela pode, inclusive, ser uma verdadeira libertação para corpos físicos cansados e saciados da aventura terrena, mas e quanto a dor da separação? Há como não sofrer com a dor da separação? É possível seguir leve, sereno e inteiro depois que se perde alguém?  

Os psicólogos afirmam que é possível ressignificar a dor da perda. Eu também concordo isso. Aliás, eu acredito que só conseguimos seguir em frente porque temos essa grande capacidade de ressignificar e transformar a dor em boas memórias e em boas ações para aqueles que estão ao nosso lado e ainda dependem de nós, do nosso apoio, colo e presença.

Não é fácil, no entanto, transformar a dor em algo sublime, sem antes atravessarmos um mar de sentimentos que tornam a nossa fé questionável e vacilante. Ressignificar exige tempo. Um tempo único e intransferível para cada um de nós, porque cada pessoa lida com a dor à sua maneira, da forma como consegue e lhe é possível.

O fato é que quando perdemos alguém, a vida pede para seguirmos em frente; e nós seguimos, meio a contragosto, um pouco desorientados, mas seguimos. Prosseguimos porque a vida exige que continuemos em movimento, resolvendo as questões do dia a dia, os problemas burocráticos, as questões financeiras. Seguimos porque a vida, que se tornou séria e menos alegre, exige que continuemos em passos lentos ou rápidos, cumprindo um calendário esvaziado de sentido, rumo a um destino desconhecido.  

 

quarta-feira, 8 de março de 2023

Dia da mulher

Quarta-feira, 8 de março. Entro no ônibus e vejo uma motorista mulher. Fico surpresa! E porque a surpresa? Mulher também dirige ônibus, esqueceu? Dirige trem, caminhão e até avião. Mulher conduz. Conduz a casa, a escola e a empresa. Mulher trafega. Trafega por todas as profissões, os cargos e espaços. Mulher abre caminhos, faz o caminho, percorre e corre (como corre!). Mulher dá a direção, dá sentido, dá a vida.

domingo, 21 de agosto de 2022

"Fui sua aluna"

Dia desses fui a um laboratório de análises clínicas para me livrar (quis dizer entregar) duas amostras de excrementos, também conhecido como cocô. 

Enquanto esperava, ansiosa, para largar (quis dizer deixar) os tubinhos com algum enfermeiro, vi uma senhora muito elegante. Ela era loura, tinha os cabelos bem curtinhos e estava sentada com o celular nas mãos. Eu estava em pé, a pouca distância da distinta mulher, o que permitiu que eu escutasse, por tabela, um áudio que alguém enviara para ela. “Solange”, disse a voz do áudio. “Hum, Solange”, aquele nome era familiar para mim, refleti. Olhei de novo, e com um pouco mais de atenção, para a refinada dama, e a reconheci no mesmo momento. “Sim, era ela!", pensei, a professora Solange do extinto Colégio Senador Roberto Simonsen, em São Caetano do Sul. 

A Solange foi a minha professora no Ensino Fundamental ll e foi com ela que aprendi a gostar de Língua Portuguesa. Mais tarde, a professora Elizete Bontempi  despertaria ainda mais meu interesse pela disciplina. 

Tive vontade de ir falar com ela assim que a reconheci, perguntar se ela lembrava de mim, contar que ela havia me inspirado, que eu adorava as suas aulas, mas me contive. Afinal, estávamos em um laboratório de análises clínicas, em meio a tubos de fezes e urinas e não em um café, rodeadas de cappucinos e croissant. Além disso, só Deus sabia que tipo de exame aguardava por ela. Coleta de sangue? Algum ultrassom do tipo feminino e desconfortável? Minha imaginação foi longe em questão de segundos. Por fim, sentei ao lado dela a fim de aquietar a mente, mas foi aí que a vontade de puxar papo veio ainda com mais força; novamente me segurei. Desta vez o que me brecou foi a lembrança do que uma professora da graduação, de humor ácido, sempre dizia a nós, alunos. "Se me virem no Carrefour finjam que não me conhecem, porque eu vou fingir que não conheço vocês". Diante dessa doce lembrança hesitei e permaneci sentada e imóvel, quase sem respirar, na silenciosa sala de espera com paredes brancas.

Quando o enfermeiro finalmente abriu a porta e a chamou eu gritei, assim como quem leva um susto: "professora". Ela olhou na mesma hora. "Eu fui sua aluna", disse meio sem jeito. Ela sacudiu a cabeça em tom de negação e indignação como se pensasse:  "até aqui aparece um aluno!". Diante dessa reação calorosa respondi: "não dá pra escapar, neh?" (nem dos exames e muito menos dos ex-alunos), pensei, enquanto ela se dirigia para sala de coleta.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Para Catarina, minha pequena

O tempo voou
E você aprendeu
A andar, a falar e até a cantar

O tempo voou
E você foi brincar
De correr, de pular e de escorregar

O tempo voou
E você quis jogar
A bola e também a areia pro ar

O tempo voou
E você escutou
O barulho do mar e o trovejar

O tempo voou
E você aplaudiu
O avião, o helicóptero e as nuvens que viu

O tempo voou
E você desenhou
No caderno, na parede e também no tapete

O tempo voou
E você saboreou
Um pão de queijo quente e o chocolate ao leite

O tempo voou
E você viu girar
Os pássaros, a abelha e a borboleta no ar

O tempo voou
E você se encantou
Com a Peppa Pig, o Daniel Tigre e o personagem Blippi

O tempo voou
E você embirrou
Pra vestir os sapatos e o vestido de babados

O tempo voou
E você se transformou
Numa menina travessa, cheia de cachos e chiquinhas na cabeça

O tempo voou
E você cresceu
E o meu amor transcendeu
E essa poesia nasceu



segunda-feira, 26 de julho de 2021

Celebrar a vida

Não é sobre completar mais um ano de vida. É sobre completar mais um ano de vida em meio a uma pandemia que tirou a vida de tantas pessoas. É sobre estar aniversariando com saúde, ao lado da família completa, uma parte até já imunizada. É sobre estar fazendo aniversário e poder comemorar, porque todos os meus amigos estão vivos, bem e seguindo como podem em seus home offices. Aliás, é também sobre ter trabalho, moradia e acesso a pequenos luxos, enquanto muitos não estão conseguindo ter acesso ao essencial. É sobre ainda ter esperança, enquanto muitos a perderam diante de tantas tragédias. É sobre ter uma lista grande de pessoas que desejo encontrar e abraçar quando estiver imunizada. É sobre celebrar a vida. É sobre gratidão!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

"Filho é um espinho"

 “Filho é um espinho”, disse uma senhora do meu condomínio outro dia para mim. “Você acha?”, perguntei intrigada. “Sim!”, afirmou ela sem pudor. Eles nos cansam quando crianças, nos preocupam quando adultos e esquentam a nossa cabeça a vida inteira. Ajeitei a minha filha no colo, me aproximei – ainda não eram tempos de pandemia – e comecei a ouvir, com mais atenção, o que aquela senhora de cabelos brancos e pele enrugada tinha pra me dizer. 

Ela falou por uns cinco minutos. Contou todas as suas aventuras e desventuras como mãe. Me colocou a par até de alguns detalhes inconfessáveis – que eu preferia nem ter escutado. Vez ou outra, minha filha chutava a minha perna em tom de impaciência, como se pedisse para que saíssemos dali,mas como interromper uma senhora determinada a narrar a vida para uma jovem estranha? Fiquei ali, em pé, com dor na espinha dorsal, até que ela encerrasse toda a sua trajetória maternal.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Surpresas da vida


Doze meses foram pouco para tudo o que aconteceu na minha vida neste ano. Quanta mudança, reviravolta e surpresas em apenas 365 dias.

O fato é que no dia 31 de dezembro de 2017 eu não imaginava, nem em sonhos, tudo o que viveria ao longo de 2018. Namorei, engravidei e casei - para a surpresa de todos e, principalmente, para a minha -, que não pensava em casar ou ser mãe até me sentir preparada de verdade, ou seja, até a próxima reencarnação.

Como nada foi planejado, a situação poderia ter sido caótica, cheia de dificuldades e percalços. Só que mais uma vez, para a minha total surpresa, tudo fluiu, caminhou e evolui.

Tive (tivemos) o apoio da família, dos amigos e dos conhecidos. Fomos cuidados, presenteados e abençoados. E, por tudo isso, eu e o meu maridinho (ainda estou me acostumando com essa história de marido, esposa, cônjuge, rsrs), só  temos a agradecer.

Bom, no fim das contas, a vida me deu uma baita lição: a gente pode se programar, planejar e traçar metas, mas os grandes fatos, aqueles que mudam definitivamente as nossas vidas, ocorrem sem aviso prévio ou data marcada.


Viver é se surpreender!


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Um brinde



Um brinde às histórias de amor mal resolvidas, aos noivados desfeitos e aos casamentos que acabaram antes do tempo.

Um brinde aos amores não correspondidos, a todas as vezes em que ficamos com o coração partido e com o ego ferido.

Um brinde às bocas que não se encaixaram, aos olhares que não se cruzaram e às mãos que não se entrelaçaram.

Um brinde aos encontros presenciais que não deram certo e aos virtuais fadados ao insucesso.

Um brinde às mensagens de amor ignoradas, não visualizadas ou deletadas.

Um brinde às transas malsucedidas, aos coitos interrompidos e aos orgasmos fingidos.

Um brinde por todas as vezes em que tropeçamos na carência, na ilusão ou na paixão.

Um brinde às vezes em que fomos o algoz ou a vítima.

Um brinde a todas as coisas que deram errado. E um brinde ainda maior a tudo que pode dar certo!

Camila Santos


domingo, 18 de junho de 2017

O Sol

Ei dor...eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
Ei medo...eu não te escuto mais,
Você, não me leva a nada.
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou,
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou

Ei dor...eu não te escuto mais
Você não me leva a nada
Ei medo...eu não te escuto mais
Você não me leva a nada
E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou

Yeah
Caminho do sol baby
Lalalalala
Caminho do sol baby

E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou
E se quiser saber pra onde eu vou
Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou

Jota Quest


terça-feira, 6 de junho de 2017

Maresia

O meu amor me deixou
levou minha identidade
não sei mais bem onde estou
nem onde há realidade

Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido
mas meu coração ligeiro
não se teria partido

ou se partisse colava
com cola de maresia
eu amava e desamava
sem peso e com poesia

Ah, se eu fosse marinheiro
seria doce meu lar
não só o Rio de Janeiro
a imensidão e o mar

leste oeste norte sul
onde um homem se situa
quando o sol sobre o azul
ou quando no mar a lua

não buscaria conforto
nem juntaria dinheiro
um amor em cada porto

Ahhhhhh se eu fosse marinheiro...
não pensaria em dinheiro
um amor em cada porto...


Ahhhhhh se eu fosse marinheiro...

sábado, 20 de maio de 2017

Mal resolvida

Anos de terapia não me tornaram uma pessoa bem resolvida. Quem dera tivesse transformado. Continuo com medos, inseguranças e angústias, que às vezes tomam conta de mim. São sentimentos que, volta e meia, me paralisam.

Bem que eu gostaria de ser mais assertiva, destemida e descolada. Com coragem, de sobra, para encarar qualquer desafio sem titubear. No entanto, eu vacilo, eu travo, eu tenho medo!

E não é medo apenas das coisas ruins. Eu também tenho medo das coisas boas. Fico apavorada quando algo que desejo, muito, começa a dar certo. No fundo, no fundo, tenho vontade de sair correndo quando percebo que está tudo ok. Difícil de entender? Tenham certeza que é mais difícil viver tudo isso; porque eu simplesmente travo diante de situações que podem me trazer alegria.

É... eu sou o tipo de pessoa que hesita antes de entrar no trem. Que fica parada olhando para o ticket com medo de embarcar. Sou daquelas que reflete muito, mas muito mesmo, antes de entrar no vagão e aproveitar a viagem - mesmo desejando muito descobrir as surpresas que me aguardam no fim do destino. Eu penso, sofro e hesito antes de seguir em frente. E sei que com essa atitude já perdi inúmeras viagens (mas não só elas). Devo ter perdido muitos empregos e muitos amores também. Aliás, acredito que deixei de viver muitas histórias de amor, por conta desse caos interno que toma conta de mim.

Por outro lado, estou me tornando alguém que tem coragem para falar o que sente. E eu sei que agir assim, em um mundo onde esconder os sentimentos tornou-se normal, é um sinal de muita coragem, não é mesmo? Agora, eu falo o que sinto vontade, sem vacilar. Mesmo correndo o risco de ser tachada de piegas, romântica ou careta. Não tenho mais medo de expor os meus sentimentos e fraquezas. Não me importa que vivemos em um mundo de “personas” perfeitas, decididas e bem resolvidas. Eu não sou assim. E não quero viver essa personagem, porque eu sou de verdade. Eu não sou fake.








domingo, 8 de janeiro de 2017

Mulheres de 20 x mulheres de 30

Nessa semana li uns três artigos sobre as diferenças entre as mulheres de 20 e 30 anos. Mas será que somos tão diferentes assim? Por incrível que pareça somos sim! Há muita diferença entre as meninas, recém saídas do colegial, e as mulheres de 30, já calejadas por algumas experiências.


Aos trinta anos ficamos mais seletivas e essa seleção é aplicada em vários aspectos de nossas vidas: roupas, relacionamentos, amizades, trabalho... Não estamos mais na fase de experimentar, de se submeter a qualquer situação, só pelo prazer da novidade. Nessa idade já desbravamos alguns territórios desconhecidos e sabemos o que funciona ou não para nós. Short curtíssimo, por exemplo, não funciona. A não ser que seja para usá-los, num dia de calor intenso, dentro de casa. Blusinha mostrando a barriga, então, nem pensar! Já a maquiagem passa ser uma ótima aliada para nós, mulheres balzaquianas. Ela esconde as olheiras, disfarça aquelas manchas na pele, que antes dos trinta anos não existiam, e nos deixam com um aspecto mais jovial e saudável.


Outra diferença é no campo profissional. Aos 20 anos temos uma visão mais idealista em relação a nossa carreira. Acreditamos que podemos conquistar o mundo e, muitas vezes, nos sentimos a última bolacha do pacote, mesmo sendo apenas estagiárias. Já aos 30 nos tornamos mais realistas e, embora saibamos da nossa capacidade e valor, enquanto profissionais, já não nos deslumbramos com isso. Temos consciência de que somos mais uma no meio de milhares e de que precisamos trabalhar muito e estudar mais ainda para um dia, bem lá na frente, sermos profissionais reconhecidas. 


No campo afetivo a história também é diferente. Aos 20 anos nós nos jogamos em qualquer relacionamento, de olhos fechados, sem medo de sofrer. Estamos dispostas a arriscar todas as fichas, mesmo que o sujeito não valha nem um real. Somos menos criteriosas e mais fogosas... Aos 20 anos estamos de coração aberto e queremos aproveitar todas as oportunidades e novidades; nessa fase a quantidade vale mais do que a qualidade. Aos 30 anos não temos mais paciência para homens mal educados, mal estruturados e mal escolarizados. O fator beleza torna-se secundário, queremos um homem honesto, de bom caráter e bom coração. Queremos um sujeito maduro, não de idade, mas sim na maneira de agir. Não queremos um homem para nos sufocar ou nos podar, só queremos alguém que nos valorize, nos respeite e nos acolha em dias de sol ou chuva.


Resumindo: acho que os 20 anos estão para os sonhos, assim como os 30 anos estão para a realização. Aos 30 anos nós só queremos concretizar - não grandes obras, nem grandes feitos ou grandes amores. Nós, balzaquianas, queremos realizar as coisas simples, que fazem sentido para nós e para as nossas vidas. Nessa fase nós só queremos que os nossos projetos e desejos se materializem, na medida do possível, sem grandes alardes, fantasias ou pretensões. Nessa idade já sabemos que não podemos fazer tudo, mas que podemos melhorar muitas coisas ao nosso redor, dando um passo de cada vez; e acima de tudo é um momento em que só queremos ser felizes, sem nenhuma ilusão. Mas com muita convicção.



Camila Santos

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Tempo de Travessia


“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre

À margem de nós mesmos”

Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Solteirice

Não estava nos meus planos me tornar uma solteira convicta. Mesmo porque, nem há tanta convicção assim na minha solteirice. Estou solteira por uma questão circunstancial. Afinal, são as circunstâncias que não caminham a meu favor há algum tempo - e que tempo  - para eu encontrar um namorado legal, excepcional e cordial.

Houve uma época em que eu acreditava estar solteira por falta de sorte ou pelo meu excesso de romantismo.

Já culpei os astros pela minha solteirice, a numerologia e a tarologia. Quer saber...talvez a culpa seja das estrelas...

Também já condenei os homens pela minha solteirice, com todas as suas babaquices e idiotices. Os incriminei por falta de comprometimento, respeito e envolvimento. E os julguei por serem superficiais e amorais. Já os subestimei e superestimei demais, muito além do merecimento de muitos deles.

Enfim, já culpei a tudo e a todos. E cheguei a conclusão de que boa parcela da culpa é minha, de mais ninguém. O fato é que a minha postura defensiva me trouxe aqui, para esse lugar solitário, onde relacionamento sério se tornou algo raro.

Talvez eu precise ir mais para a balada, tomar mais geladas e ficar menos “trancada” em casa. Talvez eu deva começar a apostar mais nos modelos sensuais e abandonar as roupas casuais. 
Talvez seja a hora de virar a mesa. E entender um simples fato: todo sapo é um pouco príncipe e todo príncipe  é um pouco sapo.

Camila Santos


domingo, 21 de agosto de 2016

Olimpíadas


Vou sentir saudades da Olimpíada do Rio de Janeiro. Não apenas dos jogos em si, mas principalmente do clima de festa e alegria que tomou conta do nosso país.

Durante duas semanas nos tornamos um povo otimista, com alegria e fé renovadas. Foi um período mágico, no qual nossos problemas se tornaram pequenos, diante da grandiosidade dos nossos atletas. E os nossos atletas...ah o que falar dessas pessoas incríveis que se superaram a cada competição? Difícil pontuar a força e sede de vitória de cada um deles.

O fato é que vibramos com eles e por eles. Comemoramos o terceiro lugar, a medalha de ouro e acima de tudo a participação de cada um dos nossos esportistas; e sabe por quê? Porque eles estavam nos representando nas quadras, piscinas e tatames, de forma tão excepcional e patriótica, que foi difícil não torcer e se emocionar.


Hoje não temos mais olimpíadas. Acabaram as competições, as medalhas e vitórias. Nossos pés foram tirados do pódio e colocados no chão. Hoje é segunda-feira, dia de realidade. Momento de olhar para todos aqueles problemas que deixamos para resolver depois. 


E agora, o que faremos com o término dos Jogos Olímpicos? Muito se fala no legado dos jogos, ou seja, em toda a herança que o evento vai deixar no nosso país.  Torço para que o legado olímpico se torne realidade e para que o esporte seja mesmo, a partir de agora, visto como uma ferramenta de transformação social, porque do contrário continuaremos sendo apenas o país do futebol, dos políticos corruptos e do carnaval. 

Camila Santos

domingo, 5 de junho de 2016

Oitavo Andar

Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar
Onde a Dona Maria mora
Porque ela me adora e eu sempre posso entrar

Era bem o tempo de você chegar no T
Olhar no espelho seu cabelo, falar com o Seu Zé
E me ver caindo em cima de você
Como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer

E ai, só nós dois no chão frio
De conchinha bem no meio-fio
No asfalto riscados de giz
Imagina que cena feliz

Quando os paramédicos chegassem
E os bombeiros retirassem nossos corpos do Leblon
A gente ia para o necrotério
Ficar brincando de sério deitadinhos no bem-bom

Cada um feito um picolé
Com a mesma etiqueta no pé
Na autópsia daria pra ver
Como eu só morri por você

Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar
Em vez disso eu dei meia-volta
E comi uma torta inteira de amora no jantar


Clarice Falcão

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O valor do Não



Cresci ouvindo minha mãe dizendo sim para todos. Ela jamais negou um pedido ou favor a alguém. Minha mãe é daquelas pessoas extremamente prestativas. Ela está sempre pronta para colaborar e ajudar seja quem for. Ela pode até deixar de atender um desejo dela, nem que para isso ela negligencie as suas próprias necessidades. Mas sempre (sempre mesmo) ela se prontifica a realizar o desejo das outras pessoas.

Essa disponibilidade da minha mãe sempre me causou certa aversão. Não porque eu não gosto de ajudar as pessoas, muito pelo contrário! Mas porque acompanhei a frustração da minha mãe, por inúmeras vezes, ao constatar o seu apoio e ajuda sendo retribuídos com ingratidão e esquecimento.

Daí você me fala: quem ajuda deve fazê-lo de coração, sem esperar nada em troca. Daí eu te pergunto: você não espera retribuição ou pelo menos o mínimo de consideração daqueles que um dia você ajudou? Por mais desencanados e bons que sejamos sempre esperamos o reconhecimento daqueles que apoiamos. Um dia podemos até abandonar esse mau hábito do “uma mão lava a outra”, mas isso não ocorrerá amanhã, nem daqui um ano, nem daqui a séculos, porque somos humanos e faz parte da nossa natureza esperar pela gratidão daqueles que um dia ajudamos. Está aí a política que não nós deixa mentir: ela é feita de troca de favores, de acordos, enfim de apertos de mão, que quando não cumpridos geram esse constrangimento todo que está aí; Dilma x Michel Temer.

O fato é que por algum motivo que Freud explica percebo que ando repetindo o comportamento da minha mãe. Tenho falado muitos sins e dito poucos não. E o pior: tenho falado sim para situações e pessoas que há muito tempo estão merecendo um NÃO bem grande. Sinto que estou sendo colaborativa demais e tenho recebido retorno de menos.  E isso tem se espalhado para todos os setores da minha vida (um caos).

Tô parecendo um robozinho programado para dizer sim. Estou funcionando no automático, como se minhas idéias e anseios não tivessem importância alguma; e isso tem que mudar!